23/11/2015

Daquele Famoso vídeo de Morgan Freeman

Trecho da entrevista concedida ao jornalista do "60 Minutes" Mike Wallace.


  Vejo e revejo este vídeo e percebo que a maioria das pessoas que o compartilham com uma intenção bem diferente da leitura que hoje faço. 

  Alguns que elogiam afirmam que ele foi feliz por afirmar que dia da consciência negra é ruim, por perguntar pelos dias das consciências judia e branca e por não querer uma dia da consciência negra por isso. Ou quando respondendo o que acabaria com o racismo seria parando de falar nele, sobre ele. Já quem critica o vídeo alega que o ator norte americano negou a luta contra o racismo, que suas palavras reproduzem o discurso do opressor, do sistema racista enfim. Hoje revendo o vídeo me proponho e lhe proponho uma nova leitura. Mesmo com todas as limitações que um trecho isolado de uma longa conversa tenham, arrisco algumas ponderações sobre o que está dito. 

  A primeira afirmação que aparece é o dia da consciência negra é ridículo, e ainda sustenta sua ideia questionando pelo dia das consciência judia e branca. O que fica esquecido, ou negligenciado é que ele propõe que um dia, ou mês não limita a história do negro norte-americano, que se confunde com a prórpia história da América. Me apego a essa frase pra  minha primeira análise. Em síntese uma data realmente não contempla a história de um a povo, nem lhe garante mais direitos, pode propor debates, chamar a atenção para as demandas a quem ela celebra. Mas o que me despertou a escrever foi pensar em que uma data pode desfocar a luta diária, incessante e perversa do povo negro todos os  dias.

 A consciência negra faz parte de um processo, é uma construção que tem passado por gerações, uma construção e reconstrução muito profundos quando pensamos nos negros da diáspora e seus descendentes. O papel do povo negro hoje, entendo que seja o de alimentar-se de toda ancestralidade, suas lutas, conquistas, estratégias, resistências e hoje enquanto vida tivermos respeitar esse legado lutando, conquistando espaços políticos e na política para entregarmos um mundo com mais espaço e liberdade para as próximas gerações, as próximas gerações deverão ter maior consciência de seu lugar no espaço social, qual sua origem o como pode contribuir para que cada vez mais conquistem a liberdade. Posso entender nas palavras de Morgan Freeman quando diz ser contra o mês da consciência negra, que ele está afirmando de que nenhuma data é suficiente para contemplar as lutas do povo negro americano que como ele mesmo diz 'é a história americana." Na verdade não é mês da consciência negra que o incomoda, mas sim a ideia que reduziria os séculos de luta em uma data comemorativa.

  Quando perguntado sobre como acabar com o racismo ele afirma: "Parando de falar sobre isso!" Pode-se interpretar que ele está propondo uma fuga ao tema, ou que estaria afirmando que se não falarmos sobre racismo ele se encerra. Mais adiante ele diz, não querer ser reconhecido como um homem negro, mas Morgan Freeman, o mesmo vale para o entrevistador Mike Wallace, não quero conhecê-lo por judeu, ou branco, mas pelo seu nome.

Proponho uma reflexão nessa releitura, uma reflexão sobre o problema da diferença, ou essencialmente sua rejeição. Criamos uma sociedade que rejeita, nega e violenta o diverso, mesmo reconhecendo que o universo é composto pela diferença, que ela existe, que é tangível e inegável, entendamos que reconhecer que as diferenças existem não é suficiente. Não basta ao entendimento das diferenças seu mero reconhecimento. É fundamental atentarmos para o espaço social, o espaço de convivência, é nele que se pratica o exercício da diferenciação, da aceitação das diversidade humanas, da aceitação intelectual e afetiva de que o outro existe e merece ser aceito como ele é não baseado nos valores que superficialmente atribuímos.

Quando olhamos o outro, o fazemos dominados pelo juízo de valor, esse jamais é neutro, está preso a estruturas previamente construídas em nossa consciência, com isso ao olharmos o outro registramos a diferença e construímos orientações de conduta sobre ele, pensamos a diferença a partir da identidade do outro, olhamos o diferente rejeitamos e automaticamente construímos uma identidade pronta e acabada sobre os sujeitos. Por isso quando olhamos alguém na rua com algum elemento identitário diferente do nosso construímos uma identidade para ele e julgamos saber sobre seu caráter, convicções políticas, religiosas e afetivas, aí nasce o preconceito.

  Muniz Sodré disse num programa chamado "Café Filosófico" que o preconceito é sempre um saber automático sobre o outro, o preconceito não precisa de provas. Você o outro, vê a aparência, não aceita e automaticamente constrói um saber pleno sobre ele e o rejeitamos. Discriminamos porque ignoramos o outro, ignoramos intelectualmente e principalmente afetivamente, assim excluímos o diverso, excluímos o outro. Não sabemos, ainda segundo ele, lidar com a diferenciação, não sabemos fazer diferenças. 

Nosso olhar sobre o outro é demarcado por uma construção previamente construída ao ver o diferente o vestimos com algo que construímos, sem respeito ou sensibilidade ao outro como ser, rejeitamos, odiamos. Ao mesmo tempo jamais fazemos o exercício de olharmos profundamente para nós mesmos para o que somos assim não respeitamos a nossa identidade e nem a do outro. Respeitar o outro é respeitar a si mesmo. Nos falta perceber o mundo com suas diferenças com sensibilidade, respeito sem as amarras do que construímos sem questionar, assim perceberemos o outro não a partir dos estereótipos, mas sim do profundo dos seres e quem sabe não trataremos o outro por seus rótulos, mas sim pelo que eles são essencialmente. 



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