18/01/2014

Causos da Bahia



Em primeiro lugar peço licença a quem de direito para contar essa história que ouvi afinal, seus protagonistas merecem meu total respeito.


A Bahia é uma terra mágica, isso todo mundo sabe, e isso não é uma metáfora, a Bahia é de fato e de direito a terra mais transcendental do Brasil, e com certeza está entre as dez mais do planeta.  A história que contarei aqui é verdadeira, os personagens são reais, os nomes foram mudados para garantir sua privacidade, porém mais uma vez apelando a quem conhece a Bahia e nesse caso Salvador, sabe que coisas como essas acontecem todos os  dias.


D. Maria Angélica Santana é uma dessas mulheres guerreiras que encontramos nas comunidades de Salvador, mulher negra, que do alto dos seus 1,68 apesar de toda marca da vida conservava ares de juventude em seu rosto, mulher severa na criação dos filhos, mas com uma ternura maior do mundo. ensinou tudo que sabias a sua cria: meninos e meninas, cozinhavam, faziam pequenas costuras, arrumavam a casa, a tabuada e a ler. Queria todos os filhos estudando e com boas notas, mesmo com tanta correria na vida, sempre arranjara tempo pra aparecer na escola dos filho de surpresa pra saber como andavam as coisas. tinha estratégias sofisticadas para criar os filhos com o pouco que ganhava e com aquelas parcerias que os moradores das periferias conhecem bem. Pra bater uma laje, a dona casa, depois de comprar o material a prestação na casa de material do bairro e arrumar um vizinho pra fazer o carreto com preço camarada. Oferece um feijão e algumas cervas geladinhas, os vizinhos na camaradagem garantem o serviço prestado. D. Gel como era mais conhecida, tinha muitas atividades, vendia geladinho, café da manhã numa obra perto do seu bairro, acordava todos os dias às 04 da manhã e às 05:30 já estava com sua banca montada vendendo bolo de carimã, mugunzá e outras delícias que aprendera com sua mãe, que por sua vez aprendeu com  a mãe dela.... Às 10hs já estava em casa pra buscar o almoço que venderia no mesmo local uma hora mais tarde, sua maestria na cozinha enchia os olhos e o estômago de quem provava do seu tempero. Seu sarapatel, cozido, rabada, feijão gordo e mesmo o trivial bife com arroz e feijão eram famosos nas redondezas e não só os operários compravam, vez, ou outra alguns engravatados também apareciam, a todos seu lindo sorriso,  enorme simpatia e jeito mãezona. Jamais voltou pra casa sem ter vendido tudo que levava. Economizava muito pra garantir a sobrevivência, tinha sempre uns trocados escondidos num bolso de um velho vestido, umas moedinhas num miaeiro e sabia comprar e fazer render os produtos que vendia.


D. Gel mulher negra, no alto dos seus 30 anos já estava nas labutas da vida há quase duas décadas teve que começar cedo, cuidava dos irmãos e irmãs, depois da casa, filhos e marido, Seu Jairo Santana, homem bom, também trabalhador, um faz tudo: pescador, sapateiro, eletricista, encanador e barbeiro, contudo o lugar onde era mais querido e respeitado era nas rodas de capoeria. Mestre Caniço, como era conhecido era amado por seus discípulos, e outros mestres, aprendera o jogo de seus antepassados e ensinava muito além de esquivas, bênçãos, martelos e rabos de arraia, ensinava principalmente lições de respeito aos mais velhos, as tradições dos antepassados, e tudo que acreditava ser necessário para a formação de homens e mulheres de bem. Mestre Caniço era um negro, 1,75 usava barba, sempre muito bem cuidada não era um homem gordo, mas também não era magro, para o trabalho gostava de estar sempre bem alinhado, nas rodas de capoeira e m casa, ficava a vontade, era um menino junto dos filhos e alunos da capoeira. Tinha um andar que denunciava sua ginga de capoeirista e mestre sala, sambava lindamente e com sua esposa sempre encantavam quem os via rodopiando nas rodas de samba. 

D. gel e Seu Jairo Formam um casal como pouco se via, apaixonados, nunca brigavam, apesar de alguns desentendimentos, tudo que ganhamvam era compartilhado, seus filhos nunca tiveram luxo, roupas de marca, brinquedos eletrônicos, mas não lhes faltava amor, companheirismo e muita dedicação dos seus pais. Em sua casa, embora pequena sempre havia espaço pra reunir os amigos e fazer uma farrinha no final de semana. Cada um chegava trazia uma coisa, hora chegava um vizinho com um quilo de carne, uma irmã com uma salada, outra com uma farofa, cerveja, tropeiro, peixe... e rapidinho se passava um domingo alegre e longe dos sofrimentos cotidianos.



D. Gel, também era mulher de muita fé, sempre apegada a sua religiosidade nunca descuidava de suas obrigações religiosas, fora batizada na igreja católica quando criança, mas cresceu aprendendo a respeitar suas tradições e apesar de nunca ter sido feita, sempre visitava uma casa pra pedir a bênção dos Orixás e se proteger dos inimigos "visíveis e invisíveis, carnais e espirituais" como costumava dizer. É dessa casa que ela conhece sua amiga de longa data D. Marta, uma senhora muito doce e muito generosa, costureira de mão cheia, fazia vestidos, trajes masculinos sob medida, vestidos de casamento para as madames do centro e orla da cidade, tinha uma salinha no bairro da calçada onde aparecia gente de toda cidade pra encomendar roupas com ela. Foi ela inclusive quem fez o vestido de noiva de D. Gel e o paletó de Mestre Caniço para o casamento do qual foi madrinha. 


D. Marta mulher desenrolada, mente aguçada, usava óculos apenas para leitura de seu jornal o que fazia religiosamente à porta da sala do seu ponto todo início de manhã. Curiosamente pra costurar e cortar panos usava os óculos no alto da cabeça. Carregava um cabelo sempre muito bem trançado, ora no estilo nagô, ora com tranças longas. Muito vaidosa, sempre usava joias anéis, colares e brincos, de preferência argolas. Gostava de uma boa conversa acabou se tornando conselheira, boa parte de sua clientela lhe pedia conselhos sobre tudo: amor, amizade, proteção espiritual...Sempre tinha uma boa história pra contar.

Certa feita D. Marta sentiu a necessidade de procurar pela amiga, que há tempos não via, foi ao seu ponto de acarajé na praia do Meio e qual não foi sua surpresa quando percebeu a amiga cheinha... D. Gel estava grávida de quatro meses com previsão de parir em setembro. Depois de dividirem a alegria da novidade D. Marta promete presentear a amiga com um enxoval D. Gel agradeceu a amiga com os olhos cheios de lágrimas pensando no que aquela amizade representava pra ela.


D. Marta se esmerou no preparo do enxoval e como não fazia ideia se seria menino, ou menina, fez um lindo enxoval em amarelo, verde e branco, fez tudo, mantas, camisetas, chapeuzinho, cobertor, sapatinhos, shorts, lenços, até fraldas, que naquele tempo eram de pano, lavadas e reutilizadas. Foi a casa da amiga entregar o presente, pediu as bênçãos na igreja do Rosário do Pretos, também pediu bênçãos no Terreiro de Mãe Zilda, pedindo que nascesse com saúde e fossem protegidos por todos os santos e orixás. D. Gel já estava no sétimo mês de gestação e como sempre d. Marta foi recebida com alegria na casa da família. Seu Jairo estava que era só cuidado com a esposa, o sorriso mal cabia na boca, torcia para nascer um menino, apesar de dizer que não se importava isso. Abriram o enxoval trazido pela amiga, riram muito, rezaram, tomaram café... conversaram por horas, afinal viam-se cada vez menos por conta da gravidez, a amiga não fazia mais o ponto de acarajé nos finais de semana perto da casa da amiga onde costumavam se ver o conversar.


Enxoval entregue, D. Marta segue sua vida, costurando e preparando seus trajes... A temporada de casamentos, formaturas tomaram muito do tempo da costureira, não tinha tempo de ver a amiga e acompanhar o final da gravidez, por vezes virava a madrugada cortando panos , costurando e fazendo ajustes, dormiu muito em seu atelier nesse período. Pra piorar a situação ela que sempre teve muita disposição e quase nunca ficara doente, de maneira repentina começou a sentir dores no joelho direito e não raro sentia como se estivesse recebendo pancadas nele, como se alguém batesse em seu joelho com a mão fechada em punho batendo com a parte lateral insistentemente. O que mais incomodava D. Marta é que essas dores só a acometiam quando ela estava trabalhando, nas outras atividades nunca sentia nada, mas era sentar à máquina de costura que a dor e a sensação de pancadas começavam. Foi ao médico e não obteve resposta, passava sebo de carneiro, arnica, gelo... e nada, as pancadas e dores continuavam lhe acompanhando.


Em sua última visita a Mãe Zilda resolveu se consultar com Mãe Zilda, após consultar seus oráculos apenas diz que ela deve cumprir uma promessa que fez. D. Marta não se lembrava de dever nada a ninguém, sempre cuidadosa, sempre cumpria suas obrigações religiosas, as semanas foram passando, o trabalho que sempre realizava em tempo hábil, começava a acumular e preocupar ainda mais D. Marta. Num determinado dia, lembrou-se da amiga, afinal o bebê já deve ter nascido há um mês, "tenho que tirar um dia pra ir lá." Pegou um domingo e até mesmo pra esquecer os perrengues com seu joelho levantou cedo e foi visitar sua comadre. No caminho, a dor que nunca a incomodou fora do trabalho, deu sinais dificultando até sua caminhada, mas prosseguiu firme. Chegando lá foi surpreendida com a cena que viu, D. Gel aconchegando duas crianças em seus braços, os meninos quase dormindo.... Depois da alegria comedida da recepção pra não acordar as crianças.


-Oxente Gel, você não me disse que seriam dois, me conte como foi isso?

- Pois é cumade, veio foi dois logo, eu posso com isso? Também só soube na hora

Era o mês de Outubro, os meninos, Lázaro e Luís, caprichosamente resolveram nascer dia 26 de setembro. Que viria a ser madrinha de um deles, foi convidada pra ser dos dois o que aceitou com enorme alegria. Depois de recuperada da surpresa quis pegar os meninos no colo, pegou um, afagou beijou, abençoou ninou um pouco e pôs no berço enfeitado com peças do enxoval dados por ela. Quando pegou a segunda criança, essa começou a chorar e rejeitar o afago rejeitou de tal forma que a mãe logo acudiu e pegou a criança, achando estranho, pois nenhum dos dois havia estranhado ninguém. Nesse momento D. Marta se deu conta do que precisava fazer.


Contou a amiga sobre o que estava sentindo e lembrou-se da promessa que fez. Como Não sabia que nasceriam gêmeos de apenas um enxoval, lembrou também imediatamente do que lhe dissera Mãe Zilda e tratou de preparar o enxoval da segunda criança. Curiosamente enquanto preparava o enxoval não sentiu nada nos joelhos, mas rápido do que preparou o primeiro terminou o segundo, porém com o mesmo esmero e cuidado. Foi a casa da amiga entregar o presente e. As duas riram do episódio e do capricho dos gêmeos que mal chegavam ao mundo já estavam aprontando.


Hoje aos 68 anos D. Marta continua costurando, não sente dores, D. Gel teve outros filhos, nunca mais gêmeos, as duas continuam amigas e os meninos hoje, com 30 e poucos anos, são homens de se admirar e muitos afeitos a madrinha do coração.

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